ARTIGOS

“A ciência serve para nos dar uma ideia de quão extensa é a nossa ignorância.”

Félicité Robert de Lamennais

Treinar Menos Para Ganhar Mais

21 Aug 2016

 

Existe uma séria e consolidada ideologia no esporte que para um atleta ser bem sucedido ele tem que treinar muito, chegar ao seu limite a cada treino, dar o sangue e a vida todos os dias. Um atleta que chega no topo é aquele que supera a dor e o cansaço, aquele que mesmo exausto, lesionado ou doente completa o seu treino, levando tudo aquilo tão a serio como se fosse questão de vida ou morte.

 

Certamente essa cultura de atletas durões e incansáveis trás grandes ensinamentos aos jovens que se tornarão indivíduos persistentes e disciplinados com suas metas pessoais e profissionais. Porém, aqui vai um aviso aos pais, treinadores e atletas que levam isso tão a risca:

 

TREINAR MAIS E MAIS FORTE NÃO SIGNIFICA UM RESULTADO MELHOR.

 

Isso mesmo que você leu! Quando um atleta não está dando o resultado que gostaria e que tem potencial para tal, muitas vezes a primeira solução dada é treinar mais. Mas, muito frequentemente, os atletas, sejam eles jovens, adultos ou profissionais de elite, já treinam tanto que a solução pode ser justamente o contrário: treinar menos!

 

Volumes e intensidades excessivos de treino aliado a uma insuficiente recuperação a longo prazo torna-se uma “bomba relógio” prestes a prejudicar treinamentos e competições e muitas vezes encerrar brilhantes carreiras. Essa tal bomba explode em forma de lesões, de overreaching ou overtraining, de doenças devido à baixa imunidade, de desmotivação e até mesmo aversão pelo esporte. Não seria espantoso afirmar que tais problemas levam a uma piora significativa no desempenho em treinamento e competição, quando não chegam ao ponto de impossibilitar o atleta de dar continuidade no seu esporte.

 

 

Treinos de Madrugada vs Desempenho

 

Em muitos esportes, atletas realizam dois a três treinos por dia. Para que isso seja possível, aqueles que conciliam treinos e estudos iniciam o seu dia bem cedo, realizando uma sessão de treinamento antes mesmo das aulas da manhã, seja da escola ou faculdade. Sendo assim, devemos então questionar: Treinos de madrugada são mesmo necessários? Eles cumprem o objetivo de ajudar na melhora do atleta, ou eles chegam a prejudicar a performance? 

 

Treinar tão cedo de manhã em um período em que a temperatura corporal está baixa devido ao ciclo circadiano faz com que a performance dificilmente seja a ideal. Adicionalmente, os atletas estariam acordados no momento crítico da produção hormonal que é realizada durante o sono. 

Atletas que acordam tão cedo dificilmente cumprem o tempo de sono recomendado. A insuficiência de sono, tanto na quantidade quanto qualidade, pode resultar em um desequilíbrio no sistema nervoso autônomo, causando sintomas similares a overtraining, incluindo cansaço excessivo e letargia, diminuição de força e desempenho no esporte, diminuição de apetite e perda de peso, perda de concentração, irritabilidade, ansiedade e perda de entusiasmo pelo esporte. Além disso, ela causa uma desregulação no sistema imunológico (aumento de citocinas pró-inflamatórias), deixando o corpo mais propício a doenças e infecções.

 

 

Nem a mais, nem a menos

 

Muitas vezes um único treinador é responsável por inúmeros atletas com características totalmente diferentes, e por questão de logística, acaba aplicando o mesmo treino a todos eles. É de extrema importância que para um treinamento ideal, técnicos respeitem características de cada atleta, como idade, gênero, porte físico, treinabilidade, características do esporte praticado e outras individualidades, prezando sempre pela qualidade, não pela quantidade de treinamento.

 

 

Também é crucial para a saúde e performance que atletas respeitem aquilo que se é proposto pelo técnico, não fazendo nem a mais nem a menos do programa de treinamento. Existem casos que atletas (e pais) buscam alternativas fora do treinamento para fazer atividades complementares com o objetivo de melhorar no esporte, na maioria das vezes sem o consentimento do próprio treinador. Isso pode gerar um grande acúmulo de atividades e aumento da carga do treinamento, deixando o atleta ainda mais cansado e induzindo a “bomba relógio” citada acima.

 

 

Monitorando a Carga de Treinamento

 

Existem várias ferramentas para monitorar os efeitos de carga de treino e se ele tem sido excessivo ou adequado. Alguns deles são:

  • Marcadores psicométricos como Percepção Subjetiva de Esforço (PSE) e Percepção Subjetiva de Recuperação (PSR)

  • Marcadores psicológicos como Perfil de Estado de Humor (POMS) e Questionário de Estresse-Recuperação (REST-Q)

  • Marcadores bioquímicos como creatina quinase (CK), mioglobina e lactato desidrogenase (LDH)

  • Marcadores hormonais

  • Variabilidade da Freqüência Cardíaca (VFC)

  • Controle de carga

  • Teste de potência

  • Feedback e comunicação entre atleta e treinador

 

 

Observar o desempenho do atleta é o melhor e mais fácil marcador para a carga de treinamento. Muitas vezes os treinadores não têm acesso a marcadores bioquímicos e fisiológicos, por isso deve-se observar mudanças na imunidade, fatores psicológicos e o próprio desempenho nos treinamentos. Para isso, o treinador deve conhecer bem seus atletas para perceber se há algo de errado com ele, assim como o atleta deve se conhecer bem o suficiente para dar um feedback preciso para o seu treinador, e principalmente, haver comunicação e confiança entre atleta e treinador.

 

Se você quiser saber mais sobre ferramentas de monitoramento e maiores informações, entre em contato com nossa equipe de profissionais.

 

 


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